terça-feira, 18 de julho de 2017

sair de causa










sair de casa

beber muita água
no inferno esquecemos a sede
quero dizer
observar essas aranhas de perninhas
quase invisíveis é um bom exercício para
perder o medo de sair de casa
no inverno esquecemos de coisas
no inverno requentamos muitas coisas
as pernas também abraçam quero
dizer
quase invisível
um gorila aos bafos
requenta
meu pezinhos








sair de casa

entre os fones andar uma légua por vez notar o furo na meia notar o vento do fundo a velocidade outra o deslocamento outro e tanto as montanhas as preguiças os urubus e as raposas voadoras entre os fones e já é sábado outra vez outro inverno outra velocidade o deslocamento das mandíbulas e logo ali o outro oceano a decisão entre o copo e a garrafa a sede no contorno e no arrasto do brilho da maçaneta outra.








sair de casa

não sei começar pela boca e pela boca
é o começo
sair de casa pela boca
pudesse amornar o chá vermelho antes
de usar a boca
agora vou sair de casa escovei os dentes
as unhas usei pomada para as gengivas para
as vaginas e me hidratei
se pela boca eu vou devo cuidar se vou
do repente a gula
não sei começar pelos pecados
e pelos pecados devo de recomeçar mesmo que
o último comboio
o último bilhete NEM SÓ DE
BOCAS SOBREVIVE A PALABRA
estou em casa com minha gula e no
assento reservado para idosos e gestantes
NEM SÓ DE RUAS VIVE A ESQUINA NEM SÓ
DE SPRITE VIVE A VENDIMA eu não
sei andar dançar orar direito se pela
boca pela boca meu coração pela boca uma
flecha uma fruta uma flor vermelha algum
pecado e um vão é
um começo é um tango agora vou
sair pela cloaca





sexta-feira, 30 de junho de 2017

poltrona para Izabel







eu gosto de me apaixonar
gosto do que isso faz em mim não
saio me declarando apaixonada mas
desconfio que minhas paixões me sabem
eu gosto do que isso faz em mim
talvez minhas paixões não me conheçam
talvez não me conheçam pouco
eu gosto do que isso faz comigo
talvez minhas paixões se topem por aí
como aves e baleias 

minimamente se topam
talvez minhas paixões me encontrem um dia e aí
talvez não
talvez uma entre minhas paixões sinta também
as bolhas de carbono nos antebraços onde a água
talvez não talvez só o cheiro disso
e pode ser que uma
entre minhas paixões tenha sentido
o cheiro disso que sinto eu
gosto de saber que talvez
uma
entre
minhas
paixões tenha se apaixonado mais de
uma vez por essa música que me traz um
rosto apaixonado mentiroso
ave baleia um ou mais sorrisos embutidos
baleia ave baleia como um rosto apaixonado mentiroso
estamos num sofá de um lugar apenas
e dividimos uma pamonha
talvez esteja aqui a origem da comédia romântica
e dividimos uma pamonha e inauguramos
a comédia romântica
talvez eu leve jeito talvez 
ave baleia ave amor ave ave ave
e dividimos e inauguramos
a comédia romântica
talvez
uma entre
minhas paixões venha para a inauguração
então as bolhas

eu gosto





terça-feira, 23 de maio de 2017

9 poemas de um projeto em contrações






tomate

ainda pratico o exercício
de encarar o tomate até
que o azul tome a cena
passei por fases em que o exercício
me fez babar sem perceber
me fez o tempo por um cilindro com muitas mãos nele
me deu notícias do amarelo pelas bordas
me fez ver uma santa chorando tomates
me colocou interrompida pelo funcionário do mercado
ainda pratico o exercício
em casa carrego o tomate para o centro
da tela da minha tv de tubo
ligo a estática e ainda pratico o exercício
de encarar o tomate até que o azul tome a cena
como naquele outro exercício de
encarar o ponto preto no tomate até que o país





asinha de frango

peguei um filme pela metade
uma menina cobre os olhos para não
ouvir uma menina que cobre as tetas
me senti sugada e devolvida pela cena
e no paralítico oleoso do auge

ora
o auge a própria cena é o filme e o filme
pela metade é o auge

eu não parava de pensar que asinhas de frango vão bem
com aquela sensação pelos meus meios

em tempo e ossos
sou o frango sou o auge





a outra mina

quando a laranja se desloca
de seu lugar ela sabe que está deslocando com ela
diversas laranjas e seguem juntas
a luta diária de escolher a mão
a boa laranja repara bem nas linhas rugas manchas
cultiva excelentes preconceitos em relação
a anéis pulseiras e relógios

aquela é pra casar
aquela espreme bonito
aquele braço todo mete medo entre as limas

e se suicida rolando para debaixo da roda de um carrinho

a outra laranja não é fruta que se cheire
isso não é um hortifrúti
meu nome é jambolão











goiaba

um instante congelado
um
antes do secador de cabelos
num instante onde o contorno do corpo
abarca a vizinhança umas lembranças do filme
o narrador é lisboeta?
umas lembranças sem os vestidos do filme
desse instante em diante seria
ligar o secador
mas ainda não





romã

encaro a estante de produtos de
limpeza
da sala vem a notícia com a cor
do desinfetante
uma mula deu cria em algum lugarzinho
brasil adentro beirando a tudo pelo meio
a embalagem borrifadora de limpador de
vidros é tão bonita quanto
a notícia da mula
queria daquela gelatina de limpar estátuas
então acho que quero uma estátua
um busto
quero um busto
um busto de mula fértil
ainda estou aqui é forasteiro estar aqui os
vidros estão emporcalhados o banheiro infeccionado
a mula e sua cria
sem nomes sobrenome e esse mal é todo meu
com tanto
não sofro de esperanças em sair daqui





meio mamão

metade da menina é saliva
meio menina
que também é metade mulher
um bocadinho menino é
uma menina indecente
muito embora a menina carregue
junto da barriga a cesta de frutas-do-conde
a montanha pelas costas a rua
pela frente umas curvas acima e aos
lados
meia menininha de porcentagens encarnadas
com frutas-do-conde na altura
da barriga

ela não conhece os lagos





três uvas

cada uma morre de um jeito
a senhora de burca dizia isso
cada passarinho cai de um jeito dizia
cada buraco é de um jeito
cada vez que faço o chá dizia
e as outras duas senhoras de burca diziam
a senhora acordou animada
e cada uma das três conhecia jeitos diferentes
da semente
cada uma morre





semente de maracujá

gosto de me deitar
gosto de esperar que o colchão esteja
gosto de colocar minutos na espera
gosto de desejar o caminho até a geladeira
gosto de decepcionar meu paladar
gosto de despentear minha franja soprando
palavras em desuso
gosto de comparar o contorno das mãos com o contorno das proas
gosto da formiga que promove a curva desnecessária
gosto de chuveiro com goteira gelada
e se eu não fosse uma espécie de objeto
gostaria de um pouco mais de consideração entre os
ombros de quem finge me enxergar apaixonada coisinha de jesus






kiwi

malu não depila as pernas
malu não depila as axilas
malu não depila
malu é apontada pelas vizinhas
malu põe água no cacto da vizinha número 3
malu corre ruas sem pressa
hoje malu caiu no asfalto e ralou
o joelho o rosto todos os antebraços
agora malu não usa sabonete neutro
pudesse ser 1 slogan malu
seria A VERDADEIRA MAIONESE
malu põe mais água no cacto da vizinha número 3
pudesse ser 2 slogans malu seria
QUANDO UMA MENINA VIRA MULHER
A VERDADEIRA MAIONESE
pudesse ser 3 slogans malu seria 5
ENERGIA QUE DÁ GOSTO
QUANDO UMA MENINA VIRA MULHER
A GENTE SE LIGA EM VOCÊ
A VERDADEIRA MAIONESE
EMOÇÃO PRA VALER
malu põe o cacto morto da vizinha número 3
na lista de sugestões para o
tema da festa no condomínio
PORQUE VOCÊ VALE MUITO







terça-feira, 16 de maio de 2017

janelas para onde der – 31







você que chega da padaria
e traz pão e salame e o queijo de nome impronunciável
você que diz todas as árvores do caminho
você que diz
com tanto carinho com toda propriedade
todos os fogos do caminho você
que toca a maçaneta aprisionando teu próprio rosto
você que põe a toalha com o bordado para baixo
canta a música inventada puxa meu braço e
minha dança torta você que
apanha a faca e os copinhos você

que não sabe o que eu fiz enquanto você chegava




terça-feira, 2 de maio de 2017

torrão de açúcar no safári íntimo - zoopoética na revista Modo de Usar & CO. e outrxs



torrão de açúcar no safári íntimo




I

o charuto apagado na canela da árvore de canela
dorme em pé o cavalo sob a coruja
reparar é dos exercícios em estar coruja
estar coruja é estar o único animal a dar de ombros
para o dilúvio porém o evento
a coruja espia o cavalo dormido
lê umas sortes

não conhece outros cavalos
foi desmamado muito cedo correu a vida de forma suave
demais para um búfalo fuma porque seu antigo dono
também porque seu antigo dono dorme em pé
é pobre e magro mas tem carrapatos premiados
dorme piscando de noite e de dia galopa pelado
com os olhos fechados espremidos na memória
num cantinho da memória onde guarda o desejo
o par de galochas vermelhas daquele novembro
daquele dente-de-leão entre os dentes daquela menina
entre as orelhas daquele diamante nos cabelos daquele
sal daquela via daquele cheiro daquele nome

cansada a coruja fecha as janelas e cortinas
acontece de amanhecer e o cavalo desperta
aperta outro charuto e volta pornográfico
suave bicho rico na mansidão costumeira das
manhãs que atestam a avenida principal da cidade
maior produtora de cadeiras campesinas


II

apenas o búfalo sabe a coruja na filosofia do cavalo
o peixe me penteia no safári íntimo
para cada dente-de-leão
plantamos três mais
três mais é número de sorte do cavalo


III

o charuto apagado na canela da árvore de canela
espicha os coices bate a crina põe rio no idioma
cospe o peixe no mato o cavalo é todo asco com o peixe
rejeitar os escorregadiços
é dos exercícios em ser tão cavalo
na agonia
lê umas sortes o peixe

não conhece outras capivaras
aprendeu a ser linda besta desde potrinho
o céu ser acima é a causa disso com os cavalos
comeu o miolo do pão que o diabo amassou
flerta com os abismos porque seu antigo dono
também porque seu antigo dono o cavalo é
hipnotizado pelas maçãs pelos dentes-de-leão
nos novembros entra em estado de aleluia mas
disfarça bem é pobre e magro
sabe o próprio coração em eterno desencaixe
com a carcaça a lua ocupa boa
parte da boca do cavalo da lamúria do cavalo
que sofre tanto com gravidade mas disfarça bem

antes que a morte o cavalo
devolve o peixe ao rio como quem
afoga uma cadeira

aperta outro charuto e bufa
o rinoceronte sempre bufa
não conhece outros cavalos


IIII

o charuto apagado na canela da árvore de canela
o cavalo sempre morre
um idiota traz uma cadeira para junto do corpo
mas o cavalo sempre morre
disfarça bem desenha dentes-de-leão no barro
não conhece outras mortes



(agradecimentos ao Ricardo Domeneck)






§§§


















sexta-feira, 7 de abril de 2017

o aniversário dos minutos




no fundo do raso do mar
está a cara verdadeira
o retrato é ancestral
é uma tomada de reconhecimento
é uma tomada de negação
o andamento é manso
ereto aberto
a cara não é triste ou alegre
é manifestante
é uma tomada de reconhecimento
é uma tomada de negação e reconhecimento
é a momentânea falência dos olhos
estou
e com os braços de espinhos volto a lavar o rosto a louça
fecho o mar porque o outro recipiente
à mesa não pode perceber o aniversário
dos minutos

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

emancipado dengo - na edição 7+7 - ADÃO E EVA da FlanZine



emancipado dengo
Adão Adão Adão
engraxado Adão
por que não encontro a palavra exata
menino
por quê essa vaga na caixa torácica
homem
o torvelinho que você me deixou
o gato a cuidar o torvelinho
o pássaro preso no olho do torvelinho
todas as gerações na pequena folha só
desgraçada
no olho do pássaro
Adão Adão Adão
pressurosamente Cleusa
Maria Afonso
Airton Valadão que
foi para a Tailândia retirar costelas e colocar
gordura das ancas na boca feliz
Adão
folhas que ainda ousam mexer o barro
homi
porquê cercadas de toda presença com a lua
e o sol em Adão
escreveria boas novas boas
novas sobre o berço de tudo Adão
enviaria a fruta em chagas
porque viver em Adão
por que Adão
perceba o paraíso jamé cresceria para casa
família bons costumes
porcelana piano e lustres magníficos
digo Adão
matéria para degradar sob o signo da cruz
santa a casa psiquiátrica de detenção
amor entre irmãos
roer as unhas enquanto não
lustres magníficos Adão
e já me perdi 69 gerações mais
não volte a me procurar
querido
a febre me atocha a ser recato com grades
salivo esta última com a esperança
volte nunca a me procurar
cheiroso
significante em chagas
unhas carcomidas
Adão Adão no olho do pássaro
pássaro preso no torvelinho olho
pressurosamente
gato
emancipado dengo
gracioso nervo
odiado irmão
tua sempre tua
concessionária em vão




com militodos agradecimentos ao João Pedro Azul! 
comprem este e qualquer outro número da FlanZine aqui





sábado, 7 de janeiro de 2017

este e outros inéditos no ESCAMANDRO



boeuf bourguignon

com a DENTADURA PERFEITA da Angélica Freitas
mordendo meus miolos



escolho falar com você carne
de segunda
pretendida talhada martelada de segunda
não vamos falar de amor e nem vamos
trincar sobre o ódio
quero contar meus medos
carne quase mignon meus medos
a coleção só faz aumentar
imagino que com você é o mesmo
disso a escolha
a carne de segunda deve de
quase meiga por pouco mais dava pra encantadora
decidi por ter medo de colocar muitas
unhas na fala
imaginava e agora sei chicha de segunda
vejo sua retração
sua retração concorda comigo com
o medo das unhas na fala
e a carne de segunda é amaciada
soca-se uns alhos pelas retrações
ervas vinho barato libertinagem então fogo
o assado está como nunca
como nunca fica um assado como nunca
cheiroso enganado e fatiado
imediatamente partimos para
discussões de primeira





grata, Guilherme! :D
grata, Escamandrers! 




sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

grandessíssimos homens, mundo pequeno - 1






a cabeça é o cu da minhoca



em cores absurdas
um mau homem está morto
e assim permanecerá
foi enterrado à maneira
mais convencional
não foi velado
deixou bilhetinho para não ser rezado chorado
penso que bem podia ser
desenterrado velado e enterrado de novo
ordens que gastariam da energia comum
com um homem assim nem tão comum
em nada ordinário
do muito
ordinário
um velório com muito choro velas
sopa para os mais velhos
sopa para os recém chegados
corações de abóbora
para as crianças para os amantes
mas choro muito
do choro comum 

alguém chorou uma vez
energia desperdiçada não é energia

em cores berrantes
morreu um homem mau
em comum ao evento seria dizer
energia dedicada é energia comungada

em pouco estará misturado
o homem mau insone mau
reciclado pela mais comum metodologia
do mais comum planeta pisado









sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Londrix Apresenta: Sarau Carla Diacov )HOJE(




:D

"Carla Diacov tem raízes criativas na cidade de Londrina, onde se formou na primeira turma da Escola Municipal de Teatro e foi uma das fundadoras do TOU (Teatro Obrigatório Universal), realizou montagens memoráveis como ‘A Valsa Número 6’ (Nelson Rodrigues) e ‘A mais forte’ (August Strindberg).
Depois de se afastar do teatro, Carla passou a manter um blog e uma badalada página no TUMBLR, que ela alimenta constantemente com suas criações poéticas e visuais, destes trabalhos, surgiram 3 livros de poesias, 2 publicados em Portugal e um no Brasil.
O Sarau Carla Diacov é uma homenagem e uma celebração da obra da autora, que não estará presente, mas será muito bem representada por sua obra e um grupo de mulheres envolvidas na cena criativa da cidade de Londrina. Elis Regina Monteiro, Vivian Campos, Giovanna Triani, Thais Bastos Fernandes, Suy Correia, Mel Campus, Chris Vianna e Camila Fontes aceitaram com disposição a tarefa de apresentar ao público poemas publicados e inéditos da autora.
Além da leitura dos poemas, o evento terá uma exposição de fotos e obras da artista, além de discotecagem com as DJs Analua Ito, Silvia de Luca e Empório da Keiko (aka Katy Kakubo).

O Sarau acontece no dia 25/11, a partir das 9pm, no Cemitério de Automóveis, como parte da programação do Londrix, Festival Literario e a entrada é franca!"

Patrocínio do Festival Literário de Londrina - Londrix: PROMIC/MINISTÉRIO DA CULTURA/BIBLIOTECA NACIONAL
Apoio: GOVERNO DO ESTADO DO PARANÁ/SETI, UEL/PROEX, FUNDAÇÃO ARAUCÁRIA

Parceria: CULTURAL, RPC TV








segunda-feira, 14 de novembro de 2016

lhufas vão bem com vinho turvo





alguém diz que o dia é baldio
basta a vibração das palavras para
que um homenzinho
alimente o gato
corte os cabelos
acarinhe o pensamento sujo
de pássaros
basta a vibração
para
que o chão esteja
para que o chão receba o rosto e os joelhos
do corpo que cai com a visão
mandalas na radiação solar
basta o sol embutido nalgum sentido
do dia baldio para que
alguém comece a salgar a carne
lavar as folhas
alguém diz que o dia é baldio
alguém diz lhufas vão bem com vinho turvo
alguém com alguém passa 11 horas num
elevador entre o sexto e o sétimo piso
fazem um filho ou uma saída
o dia é baldio
alguém cai duro no sofá de bambu
alguém espera que o dia baldio acabe
então basta
esperar para que a noite chegue
inculta
cabendo a tudo
o dia na noite com salada
sujeira de pássaros
lhufas um filho uma saída